Arroz Doce na Montanha Mágica

«Havia na mesa tigelas com geleia e com mel, pratos com arroz doce e com papa de aveia, travessas com ovos mexidos e com carnes frias; a manteiga figurava em abundância; alguém estava a levantar a redoma de vidro para cortar um pedaço de queijo suíço, húmido de gordura; e no centro da mesa via-se ainda uma fruteira com frutas frescas e secas. Uma criada vestida de preto e branco perguntou a Hans Castorp o que desejava beber: cacau, café ou chá. Era baixinha como uma criança, e tinha um rosto oblongo, de velha. Como Hans Castorp constatou com espanto, era uma anã. Ele lançou um olhar ao primo, mas este limitou-se a encolher os ombros, franzindo as sobrancelhas, como para dizer: “E então?”. Assim, Hans Castorp, conformando-se com o facto estranho, pediu chá, com especial cortesia, por se tratar de uma anã. Pôs-se, então, a comer arroz doce, com açúcar e canela, enquanto os olhos vagueavam por sobre os demais pratos, que ainda desejava provar, e estudavam os hóspedes distribuídos nas sete mesas – os colegas de Joachim, seus companheiros de destino, todos enfermos interiormente, e que ali, conversando, tomavam o pequeno-almoço.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica. Lisboa: Edição Livros do Brasil. 1924: 47-48.

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