Arroz Doce na Montanha Mágica

«Havia na mesa tigelas com geleia e com mel, pratos com arroz doce e com papa de aveia, travessas com ovos mexidos e com carnes frias; a manteiga figurava em abundância; alguém estava a levantar a redoma de vidro para cortar um pedaço de queijo suíço, húmido de gordura; e no centro da mesa via-se ainda uma fruteira com frutas frescas e secas. Uma criada vestida de preto e branco perguntou a Hans Castorp o que desejava beber: cacau, café ou chá. Era baixinha como uma criança, e tinha um rosto oblongo, de velha. Como Hans Castorp constatou com espanto, era uma anã. Ele lançou um olhar ao primo, mas este limitou-se a encolher os ombros, franzindo as sobrancelhas, como para dizer: “E então?”. Assim, Hans Castorp, conformando-se com o facto estranho, pediu chá, com especial cortesia, por se tratar de uma anã. Pôs-se, então, a comer arroz doce, com açúcar e canela, enquanto os olhos vagueavam por sobre os demais pratos, que ainda desejava provar, e estudavam os hóspedes distribuídos nas sete mesas – os colegas de Joachim, seus companheiros de destino, todos enfermos interiormente, e que ali, conversando, tomavam o pequeno-almoço.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica. Lisboa: Edição Livros do Brasil. 1924: 47-48.

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Tarte do Tempo Maravilha

«(…) quando, de repente, um Coelho Branco com olhos cor-de-rosa apareceu a correr ao lado dela. Não havia nada de muito extraordinário nisso; nem sequer Alice pensou que fosse assim tão estranho ouvir o Coelho dizer para consigo: “Meu Deus, meu Deus! Vou chegar atrasadíssimo!” (só mais tarde, ao pensar nisso, é que se lembrou de que devia ter estranhado o que vira, pois, na altura, tudo lhe pareceu natural); mas, quando o Coelho tirou mesmo o relógio da algibeira do colete, viu as horas e continuou o seu caminho todo apressado, então é que Alice se pôs de pé num salto, pois de repente passou-lhe pela cabeça a ideia de que nunca tinha visto um Coelho de colete, com um relógio de algibeira.»

Lewis Carroll (1865) Alice no País das Maravilhas. Linda-a-Velha, Abril/Controljornal. 2000: 7.

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Bacalhau espiritual para Leonard Cohen

«Hurry to your dinner. Hurry to your food. Finish the feeble prayer, your stonework, your golem duties to the woman being born. Hurry to the thigh on the plate and the cloudy city. Lean over your round world. Cut off rusty talk with the unfucked woman, the unconvinced friend, the countless uncertain universes, avoid diplomacy with them. Hurry to your appetite. Hurry to your birthright and the night of long knives and grease. Hurry, worker in the realms of song. Hurry angel, covered spirit, minstrel of my greasy pilgrimage. And hurry back to the warm bed where she is sleeping, where it is dark, her face turned away, and you meet in half sleep, kind to each other as if newly met. Sleep against her back, your arm across her dark waist, your hand under her breast. Until she thrashes in her sleep. The flies walk over your face. She does not know how to make you comfortable. She never has.»

Excerto de Hurry to Your Dinner” da colectânea Stranger Music, Leonard Cohen (1993). London, Jonathan Cape: 278.

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Frango de Caril para Colorir um Livro

«Os temperos são bons para colorir. Um livro colorido com pó de caril e um bocadinho de cola diluída é tão brilhante e bem cheiroso que até dá vontade de comer.»

Sophie Benini Pietromarchi (2009). O Livro do Livro. Fazer um livro a brincar. Lisboa: Edicare Editora (42). 

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Tortilha desmanchada para Meursault

«Chama-se Raimundo Sintès. É baixo, com uns ombros largos e um nariz de pugilista. Anda sempre vestido correctamente. Também ele diz, ao falar do Salamano: “É uma pena!” Perguntou-me se aquilo não me incomodava e eu respondi-lhe que não.

Subimos e eu ia deixá-lo, quando me disse: “Tenho lá em casa vinho e chouriço. Não quer vir petiscá-lo comigo?”

Pensei que isso me evitaria ter de fazer o jantar e aceitei.» 

Camus, Albert. O Estrangeiro. Lisboa: Edição Livros do Brasil. Trad. António Quadros. Obra orig. publ. em 1942 (83)

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Bolo de cominhos à moda de Bilbo Baggins

« -Entre e tome uma chávena de chá! – conseguiu dizer, depois de respirar fundo.

– Uma cervejinha caía-me melhor, se não se importa, meu bom senhor – disse Balin da barba branca. – Mas não digo que não a um pouco de bolo… bolo de cominhos, se tiver.

– Tenho muitos! – deu consigo a responder, para sua surpresa, e depois deu consigo a correr para a adega, a fim de encher uma caneca de cerveja, e em seguida para uma despensa, onde foi buscar dois belos e redondos bolos de cominhos que fizera naquela tarde para petiscar depois do jantar.»

Tolkien, JRR (1937, 2001). O Hobbit. Publicações Europa-América: 18.

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Sopa da Fada Madrinha

« – Vai ao jardim e traz-me uma abóbora – disse.

Cinderela lá foi e trouxe a abóbora mais bonita que encontrou. Levou-a para dentro, para a fada madrinha, embora não soubesse como é que uma abóbora poderia ajudá-la a ir ao baile. A fada madrinha fez um buraco e esvaziou a abóbora até ficar só a casca. Tocou-a com a varinha mágica – e a abóbora transformou-se num lindo coche dourado!

Depois a fada madrinha procurou na ratoeira e lá encontrou seis ratos vivos. Ela disse a Cinderela que levantasse a tampa da ratoeira e deixasse os ratos sair, um a um. À medida que eles se arrastavam para fora, a fada tocava-os com a varinha mágica, transformando-os em cavalos lindos, para puxar o coche.»

Adaptado de Charles Perrault em Um Tesouro de Contos de Fadas, Éditions Nathan, Paris (1994): 177. Ilustração de Annie-Claude Martin.

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