Caldo verde às segundas

«Era costume na época, como saberás, as senhoras de alta sociedade terem os “seus pobres”. A minha mãe não destoava dos ditames morais do Estado Novo. Ela, que comigo sempre foi seca e distante, às vezes sabia ser preciosa e, sempre que se tratava do seu pobre, conseguia mesmo ser a melhor de todas. O pobre da senhora dona Maria Adelaide era o mais bem vestido – mas sem ostentações – o mais bem tratado – mas sem aproximações indevidas – o mais bem instalado – mas sem veleidades – de todos os pobres da paróquia e, quem sabe, até mesmo de todas as paróquias da cidade. Às segundas, caldo verde. Às terças, sopa de nabo. Às quartas, massada de peixe. Às quintas, creme de ervilhas. Às sextas, sopinha de cenoura. Aos sábados e domingos, canja de galinha.»

Filipa Melo, in VVAA (2005). Contos que Contam. Lisboa: Centro Colombo.

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